quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A potência

Enquanto corpos suaves se tocavam dançando em passos curvados, a potência masculina revela-se delicadamente selvagem. A transpiração fundia-se num cheiro forte em toda a sala, enquanto nos tentávamos esquecer que o calor era insuportável. A energia descontrolada, de darmos tudo o que tínhamos para dar. Oferta a olhos que se esvaziavam de pensamentos. Cada uma no seu pedaço de mulher. O querer conquistar quem desejamos ser. Tudo isto se faz a dançar.

Voltemos a ser mulheres. Raiz da terra, retirar apenas o que nos pertence, reproduzir amor em forma de natureza.


Beldroegas da Praça das Caldas da Rainha. Batatas vindas não sei de onde. De um editor viajado para Marrocos.

Pesto de beldroegas:
Beldroegas
Amêndoas do Algarve
Sal marinho
Azeite



















Obrigada, Cláudia

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Em linha recta


A cadência nunca é a mesma. Há espaços maiores do que outros, há saltos que se fazem altos; outros que são pequenos e delicados. É preciso uma mão. Quem a estende primeiro? Ceder a uma fraqueza não é perder nada, é ganhar espaço no outro. Os gestos não são para ti, para ti ou para ti. São para o Outro. Divino, tudo é divino.



Meloa, folhas de tomilho biológicas secas em casa, miso e geleia de arroz.

Obrigada,
Cláudia


domingo, 31 de julho de 2016

 Centro



































No meio nos escondemos, queremos passar despercebidos. Mas os que estão à volta não nos deixam. Porque não estamos certos que não queremos. No meio do igual queremos ser diferentes. Até somos diferentes, aos olhos de quem nos identifica como "outro".

A clareza da vida afasta-nos da periferia e encontra-se ao centro.

Cenouras semeadas, colhidas, guardadas, transportadas, oferecidas, escovadas, temperadas. Tempo de espera e depois comidas. Veículo de uma estória. Pelas terras de Ferreira do Zêzere

Os cajus da Guiné. Longe colhidos, vendidos nas ruas quentes. Comprados e transportados até Lisboa. Partilha com carinho.

Calda:
Chá de citrinos
Açafrão das índias
Sal marinho
Gengibre
Erva-doce
Pau de canela
Lima
Geleia de arroz

Cenouras conservadas na calda dois dias, no frigorífico

Obrigada,
Cláudia








sábado, 2 de julho de 2016

Oferecer

Alguém deu a alguém, esse alguém partilhou. Assim chegaram até mim. Ficaram aqui, apreciaram-se aqui. E ainda chegaram ali. Eram as três últimas. Que doces, redondas, firmes e elegantes. Somos todos uma mão que dá a mão.

Exploro o doce com o salgado. A textura da polpa que amolece no leve salteado. Enquanto o calor não chega ao centro. E assim ficamos na passagem.



quinta-feira, 16 de junho de 2016

Poder








Vieram do Alentejo. Chegaram numa noite triste, uma noite que temia não chegar ao fim.
Prolongou-se por sonhos, manteve-se viva até acordar. Apesar da dor, os movimentos internos são suaves. Mesmo que haja uma explosão. E que as palavras saiam em gritos de tom baixo mas que tornam surdos o som interno. Já sabemos da impermanência, não precisamos de a procurar, dar-lhe nome e criar-lhe um lugar. Existe.


Couve flor em chá de hibisco, vinagre de amora e açúcar mascavado, por 24 horas.
Numa chapa quente com sal marinho e azeite.
Manjericão e cebolinho

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Adaptação


E quando a vida cai num trambolhão. Levantem-se. Tomem o vosso tempo, adaptem-se, com mais intensidade. Um dia passa. Há um corpo que se move e há uma presença que não sai do seu lugar. Não é indiferença, é amor.
Ao universo que nos sustenta, à vida que nos encaminha, ao que nada se espera. A uma saudade que está para chegar.

Nabos biológicos. Morangos da Fruta Feia. Calda de mel de medronho (perdura numa leve fermentação alcoólica), sal e limão.


sábado, 28 de maio de 2016

Esperar


Ontem na marginal.
No suposto momento de saída entram os pássaros a voarem alto. Que afinal voam baixo. Na queda da noite, uma massa cinzenta de nuvens esconde o sol. São andorinhas. Belas livres, de som activo e estridente. Cruzam-se no ar, rápidas sem as conseguirmos seguir.
Ao fundo uma baía e o sol sente-se grande a querer penetrar, já sem força, é hora de descansar.
O som é surdo quando não se quer ouvir.

Vou esperar sem querer, parar de sonhar e aguardar quando me quiseres tocar.

Os pêssegos ácidos. A calda de açúcar de coco no chá de hibisco. A raspa de laranja e o pó solto de açafrão. Aconchegados.





Obrigada, Cláudia